Segunda, 17 de fevereiro de 2025
Acredito que DoR e DoD estão entre os conceitos mais úteis — e também mais subestimados — em times de desenvolvimento.
A Definition of Ready (DoR) ajuda a estabelecer quando uma tarefa possui informações suficientes para começar. Já a Definition of Done (DoD) ajuda o time a estabelecer quando uma entrega pode realmente ser considerada concluída.
Parece simples.
Mas, na prática, quando essas definições não existem ou são ignoradas, começamos a ver tarefas entrando em execução sem contexto suficiente, dúvidas durante o desenvolvimento, retrabalho, atrasos, problemas de qualidade e entregas que parecem finalizadas, mas ainda precisam voltar para o time.
Neste artigo, quero explicar o que são DoR e DoD, qual é a diferença entre Definition of Ready e Definition of Done e como aplico esses conceitos em projetos reais.
Também vou relacioná-los a alguns conceitos mais amplos de qualidade que utilizo como referência no SAFe Framework .
As siglas DoR e DoD significam:
As duas ajudam o time a criar critérios mais objetivos para o fluxo das tarefas.
De forma simples, eu gosto de pensar assim:
A Definition of Ready responde: “podemos começar?”
A Definition of Done responde: “podemos realmente considerar isso terminado?”
Essa diferença parece óbvia, mas ela resolve um dos problemas mais comuns que encontro em projetos: pessoas diferentes trabalhando com interpretações diferentes sobre quando uma atividade está pronta para começar e quando ela realmente terminou.
A Definition of Ready é o conjunto de condições que eu espero que uma atividade cumpra antes de entrar em execução.
Em outras palavras, antes de começar uma tarefa, eu quero saber se o time possui informação suficiente para trabalhar.
Dependendo do projeto, eu verificaria pontos como:
Isso não significa tentar descobrir tudo antes de começar.
Projetos possuem incertezas, e muitas coisas só serão descobertas durante a execução.
Mas existe uma diferença enorme entre trabalhar com incerteza e começar uma tarefa que ninguém entendeu.
Se o time não consegue explicar o que precisa construir, talvez a tarefa ainda não esteja ready.
A Definition of Done estabelece as condições necessárias para que uma atividade ou entrega possa ser considerada realmente concluída.
Isso evita uma situação bastante comum:
O desenvolvimento terminou, mas o teste não.
O teste terminou, mas a documentação não.
A implementação terminou, mas ninguém fez a validação final.
A tarefa aparece como concluída no board, mas ainda existe trabalho pendente.
Nesse cenário, ela está realmente done?
Uma Definition of Done pode considerar, por exemplo:
O objetivo é criar uma compreensão compartilhada sobre o que significa dizer:
“Terminamos.”
Para mim, a diferença pode ser resumida de forma muito simples.
A DoR protege a entrada da tarefa no processo.
A DoD protege a saída da tarefa do processo.
A Definition of Ready tenta evitar que uma atividade comece sem condições suficientes para ser executada.
A Definition of Done tenta evitar que uma atividade saia do processo antes de realmente cumprir aquilo que o projeto considera uma entrega concluída.
Se a DoR é fraca, eu espero encontrar:
Se a DoD é fraca, eu espero encontrar:
Outro ponto importante é não tratar DoR, DoD e critérios de aceitação como se fossem exatamente a mesma coisa.
Eu gosto de separar assim:
Os critérios de aceitação podem mudar de uma tarefa para outra.
Já DoR e DoD ajudam a criar um padrão compartilhado pelo time sobre a qualidade mínima esperada na entrada e na saída do processo.
Se esses conceitos parecem tão úteis, por que são abandonados com tanta frequência?
Tenho algumas hipóteses:
Existe um comportamento que vejo com frequência em projetos atrasados:
Como precisamos entregar mais rápido, começamos a remover controles de qualidade.
Reduzimos refinamentos.
Começamos atividades ainda pouco claras.
Diminuímos validações.
O objetivo é ganhar velocidade.
Mas, quando essas decisões aumentam dúvidas, erros e retrabalho, podemos acabar perdendo exatamente o tempo que tentávamos economizar.
Quando a dificuldade está relacionada à falta de influência ou autoridade, eu não tentaria simplesmente impor uma nova Definition of Ready ou Definition of Done.
Primeiro alinharia essas definições com os stakeholders que possuem maior influência e impacto sobre o projeto.
Esse é um ponto que aprofundo no artigo Como usar a matriz de stakeholders para aumentar sua influência e melhorar a comunicação do projeto .

Se você já possui influência e autonomia suficientes para trabalhar essas definições, eu gosto de ampliar um pouco a discussão.
DoR e DoD não são, para mim, conceitos isolados.
Eles estão ligados à qualidade do processo que transforma uma necessidade em uma entrega.
É por isso que gosto de relacioná-los a alguns conceitos de Built-In Quality do SAFe .
Esse também é o tipo de problema que o Saint Jude ajuda lideranças a observar com mais clareza: tarefas entrando no board sem informações suficientes, estimativas que não correspondem à realidade e riscos criados por definições pouco claras.
O desenvolvimento de produtos inclui muitos cenários desconhecidos que o time descobre conforme o projeto avança.
O mesmo acontece com cada tarefa.
Quanto mais tarde descobrimos um problema importante, mais difícil e caro pode ser corrigi-lo.
Isso pode afetar escopo, qualidade, cronograma e custos.
Por isso, gosto de criar mecanismos que antecipem perguntas, cenários e validações sempre que possível.


Pair programming é uma prática conhecida, mas nem sempre utilizada de forma consistente.
Duas pessoas trabalham juntas na mesma atividade: uma concentra sua atenção na construção da solução, enquanto a outra ajuda a revisar decisões, identificar problemas e sugerir melhorias.
A ideia é trazer mais de uma perspectiva para a construção da entrega.
Mas existe uma realidade que também precisa ser considerada:
Se duas pessoas trabalham na mesma tarefa, elas não estão trabalhando em duas tarefas diferentes.
Qualidade possui custo.
E quase sempre existe pressão para aumentar velocidade.
Por isso, qualquer prática precisa ser analisada dentro do contexto do projeto, da capacidade disponível e do risco que estamos tentando reduzir.
Outro conceito importante é reduzir a dependência excessiva de uma única pessoa.
Quanto mais conhecimento fica concentrado, maior é o risco para o projeto.
Ao mesmo tempo, não acredito que simplesmente dizer que todos devem conhecer tudo resolva o problema.
No início de um projeto, ou quando novos profissionais entram no time, o conhecimento sobre regras de negócio, arquitetura e histórico das decisões geralmente ainda é baixo.
Esse conhecimento precisa ser construído ao longo do tempo.
Todo profissional possui padrões de trabalho.
Quando esses padrões são documentados e compartilhados, começam a se transformar em padrões do projeto.
E isso está diretamente relacionado à Definition of Done.
Se cada pessoa possui uma interpretação diferente do que significa uma entrega de qualidade, o status “Done” começa a perder significado.
Workflows frequentemente incluem passagens manuais de tarefas entre diferentes profissionais.
Cada passagem pode criar espera.
O time também pode perder tempo inspecionando tarefas manualmente ou procurando componentes que já existem e poderiam ser reutilizados.
Automatizar partes desse processo pode ajudar a reduzir tempo, custos e atividades manuais.
Na prática, isso está muito conectado ao que buscamos tornar visível no Saint Jude: onde as tarefas estão esperando, onde o fluxo está ineficiente e como trabalhos pouco claros podem afetar cronograma, custo e performance.
Agora chegamos à parte que mais me interessa: como transformar o conceito em processo.
Para criar clareza e melhorar a documentação das atividades, normalmente trabalho com um tripé formado por:
Na construção da Definition of Ready:
Por quê?
Porque, na minha experiência, é muito difícil começar um projeto com todos os membros do time possuindo conhecimento e autoridade suficientes para tomar todas as decisões.
Por isso, inicialmente crio referências técnicas e de negócio capazes de orientar e validar as atividades.
Com o tempo, o objetivo é que o próprio time adquira conhecimento e autonomia suficientes para depender cada vez menos dessas referências.
Existe uma regra prática que utilizo:
Se durante o refinamento o time ainda não entende o que precisa ser feito, a tarefa provavelmente não está pronta para entrar em execução.
Nesse caso, devolvemos a atividade para refinamento.
As perguntas levantadas pelo time se tornam novas informações que precisam ser documentadas.
O objetivo não é criar uma documentação perfeita.
O objetivo é reduzir dúvidas previsíveis antes que elas se transformem em bloqueios durante a execução.
Na Definition of Done, volto a utilizar essas referências para validar e finalizar formalmente a entrega quando necessário.
Também utilizo testes como uma camada importante de segurança.
Dependendo do projeto, posso considerar como parte da DoD:
O principal objetivo é criar uma trava de segurança.
Se existem condições críticas que ainda não foram cumpridas, a entrega não deveria ser tratada como terminada.

Quando uma tarefa começa sem clareza, o tempo não desaparece.
Ele reaparece durante a execução na forma de:
Da mesma forma, quando uma tarefa é considerada Done antes da hora, parte desse trabalho reaparece mais tarde como correção.
Por isso, eu não vejo DoR e DoD apenas como controles de qualidade.
Vejo também como mecanismos que ajudam a proteger o fluxo, a produtividade e a previsibilidade do projeto.
É aqui que os dados do projeto começam a ficar especialmente interessantes.
Jira, Azure DevOps, ClickUp, Monday.com, Asana e outras ferramentas já possuem informações sobre tarefas, responsáveis, estimativas, movimentações, prazos e entregas.
O Saint Jude funciona como uma camada de inteligência sobre esses dados.
O objetivo é ajudar gerentes, PMOs e lideranças a identificar sinais como:
Não se trata de transformar DoR e DoD em burocracia.
Trata-se de entender se as regras que o time definiu estão ajudando o trabalho a fluir melhor ou se existem problemas que continuam se repetindo.
Chego ao fim deste artigo com uma ideia simples.
Criar uma Definition of Ready e uma Definition of Done não resolve nada se elas forem apenas listas esquecidas em uma página da documentação.
Elas precisam fazer parte da forma como o time trabalha.
A DoR precisa ajudar a impedir que tarefas sem condições mínimas entrem em execução.
A DoD precisa impedir que trabalho incompleto seja tratado como concluído.
E ambas precisam evoluir conforme o time aprende.
DoR define quando podemos começar. DoD define quando podemos realmente dizer que terminamos.
Se você quer entender onde tarefas mal definidas, retrabalho, bloqueios e problemas de qualidade estão afetando prazo, produtividade ou custo, conheça Saint Jude e seus módulos de inteligência de projetos .
E no seu time? Definition of Ready e Definition of Done fazem parte do processo ou só aparecem quando alguém lembra que elas existem?
Até breve!
Erik Scaranello
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