Segunda, 02 de junho de 2025
Ter ideias normalmente não é a parte mais difícil de resolver um problema. Na minha experiência, o desafio começa quando precisamos entender qual problema realmente estamos tentando resolver, gerar alternativas sem limitar a criatividade cedo demais e, depois, decidir quais dessas ideias merecem tempo, dinheiro e esforço de execução.
É exatamente aí que o brainstorming pode ser muito útil. Quando bem utilizado, ele não serve apenas para colocar várias pessoas em uma sala e pedir ideias. Ele faz parte de um processo de ideação e resolução de problemas que pode começar com dezenas de possibilidades e terminar com uma ou duas soluções que realmente vale a pena testar.
Neste artigo, vou mostrar como costumo pensar nesse processo usando brainstorming, Crazy 8, priorização com a Matriz Esforço × Impacto e validação por meio de um produto mínimo viável. Mas existe uma etapa que precisa acontecer antes de todas elas: entender corretamente o problema.
Existe um erro que pode tornar qualquer sessão de brainstorming inútil: tentar encontrar soluções para um problema que nunca foi compreendido corretamente.
Se um produto está vendendo pouco, por exemplo, podemos imediatamente começar a sugerir descontos, novas funcionalidades, campanhas de marketing ou mudanças no preço. Mas talvez o verdadeiro problema seja outro. O produto pode estar posicionado para o público errado, ter um processo de compra confuso, não resolver uma dor suficientemente importante ou simplesmente não possuir diferenciação relevante no mercado.
Antes de procurar soluções, portanto, eu tento entender a causa do problema. Para isso, ferramentas como o Diagrama de Ishikawa e os 5 Porquês podem ajudar bastante. Expliquei esse processo em: Diagrama de Ishikawa: o que é, como fazer e encontrar a causa raiz de problemas .
Dependendo da decisão, também precisamos entender mercado, concorrência, demanda e viabilidade. Nesse caso, recomendo complementar a análise com: Análise de mercado e business case: como avaliar a viabilidade de um produto .
Só depois disso eu considero que temos um bom ponto de partida para gerar soluções.
Brainstorming é uma técnica utilizada para gerar o maior número possível de ideias para um determinado problema antes de começar a avaliá-las. Durante a primeira etapa, o objetivo não é decidir se uma ideia é boa, ruim, cara, barata, possível ou absurda. O objetivo é criar alternativas.
Parece simples, mas existe uma diferença importante entre realmente fazer brainstorming e simplesmente reunir um grupo para discutir o problema. Em uma discussão normal, alguém apresenta uma ideia e imediatamente outra pessoa começa a explicar por que ela não funcionará. Quando isso acontece muito cedo, começamos a matar possibilidades antes que elas tenham tempo para evoluir.
No brainstorming, eu gosto de separar claramente dois momentos: divergência e convergência. Primeiro abrimos o problema e buscamos quantidade e variedade de ideias. Depois fechamos novamente o campo, analisando quais delas fazem sentido.
Essa lógica é muito próxima do conceito utilizado no Double Diamond: primeiro expandimos as possibilidades e depois convergimos para aquilo que parece mais promissor.

O brainstorming pode ser utilizado para praticamente qualquer situação que exija geração de ideias ou resolução de problemas. Podemos usá-lo para pensar em novas funcionalidades, reduzir custos, melhorar um processo, aumentar vendas, resolver uma dificuldade do usuário, criar novos produtos ou encontrar alternativas para um risco que apareceu durante um projeto.
Mas existe outro benefício que considero ainda mais importante: colocar perspectivas diferentes dentro da mesma discussão.
Durante muito tempo eu ouvia aquela famosa expressão “pensar fora da caixa” e me perguntava o que isso realmente significava. Com o tempo percebi que uma das maneiras mais eficientes de fazer isso é muito simples: conversar com pessoas diferentes.
Pessoas de áreas diferentes carregam experiências, conhecimentos e problemas diferentes. Um desenvolvedor pode olhar para uma situação de uma forma, marketing de outra, vendas de outra e um cliente de uma quarta maneira completamente diferente. É justamente essa mistura que frequentemente produz uma alternativa que nenhuma dessas pessoas teria criado sozinha.

A primeira coisa que faço é apresentar um problema suficientemente claro. Quanto mais genérica for a pergunta, mais difícil será gerar ideias úteis.
Por exemplo:
“Precisamos dobrar as vendas do nosso site.”
A partir daí, começa a geração de ideias. E neste momento praticamente tudo é permitido:
- Oferecer um desconto de 10%.
- Ligar para cada usuário e oferecer um produto.
- Criar um programa de indicação.
- Mudar o processo de checkout.
- Colocar no site um macaco dançando tango com um dos nossos produtos.
- Pedir para Bruce Springsteen escrever uma música sobre a empresa.
Obviamente, algumas dessas ideias parecem completamente inviáveis. Isso não é um problema nesta etapa. Uma ideia absurda pode gerar outra ideia menos absurda que, por sua vez, pode levar a uma solução realmente interessante.
Eu costumo seguir algumas regras simples: não julgar as ideias enquanto elas estão sendo geradas, incentivar quantidade antes de qualidade, permitir que uma pessoa complemente a ideia de outra e registrar tudo. Depois de terminar a fase de geração, mudamos completamente o comportamento e começamos a analisar.
É nesse segundo momento que perguntamos: quanto isso custaria? Quanto tempo levaria? Qual impacto esperamos? Quais riscos existem? Temos capacidade para executar? Podemos testar essa ideia sem construir tudo?
O brainstorming é uma das ferramentas que podemos utilizar dentro de um processo maior de ideação. Ideação é justamente o momento em que exploramos diferentes maneiras de resolver um problema ou atender uma necessidade.
Isso significa que brainstorming não precisa ser a única técnica. Podemos combinar sessões em grupo com entrevistas, pesquisas, análise de concorrentes, protótipos, Crazy 8, observação do usuário ou outras formas de gerar alternativas.
O importante é não confundir ideação com decisão. Durante a ideação queremos possibilidades. Durante a priorização queremos escolhas.
Uma técnica que gosto bastante para acelerar a geração de ideias é o Crazy 8. A lógica é simples: pegamos uma folha de papel, dobramos três vezes e, ao abrir novamente, teremos oito espaços diferentes.
O organizador apresenta um problema. Vamos utilizar outro exemplo:
“Nosso cliente adiciona produtos ao carrinho, mas abandona a compra antes de finalizar.”
Cada participante começa então a desenhar possíveis soluções. Não importa se você sabe desenhar ou não. O objetivo não é produzir uma interface bonita; é representar uma ideia rapidamente.
A dinâmica precisa ser rápida. O participante não deve passar vários minutos tentando criar a solução perfeita. A pressão de tempo existe justamente para reduzir o excesso de análise e forçar a geração de possibilidades.
Outra regra interessante é permitir ideias impossíveis. Podemos melhorar uma ideia no desenho seguinte ou pegar um conceito criado por outra pessoa e transformá-lo em alguma coisa diferente.

Ao final, teremos várias alternativas visuais. Elas podem ser agrupadas, discutidas e combinadas até chegarmos a algumas ideias que merecem uma investigação mais séria.
Quando terminamos uma sessão de brainstorming ou Crazy 8, surge um novo problema: agora temos ideias demais.
É nesse momento que a quantidade deixa de ser prioridade e começamos a fazer perguntas mais difíceis. Qual alternativa tem maior potencial de resolver o problema? Qual é tecnicamente possível? Qual depende de menos pessoas? Qual custa menos? Qual pode ser validada mais rapidamente? Qual pode gerar mais valor?
Também precisamos considerar as pessoas impactadas pela decisão. Uma solução pode parecer excelente para produto e, ao mesmo tempo, criar um enorme problema para operações, tecnologia, vendas ou atendimento.
Por isso, quando a mudança envolve diferentes áreas ou pessoas com bastante influência, uma boa análise de stakeholders também se torna importante. Expliquei esse processo em: Stakeholders: o que são, tipos e como gerenciá-los em projetos .
Uma forma simples de começar a priorizar as alternativas é utilizar uma Matriz Esforço × Impacto. Em vez de discutir cada ideia apenas com base em opinião, colocamos as alternativas em uma matriz considerando duas perguntas:
A partir dessas duas dimensões, podemos formar quatro grupos.

É importante lembrar que esforço e impacto continuam sendo estimativas. A matriz não toma a decisão por nós. Ela apenas torna explícitos os critérios utilizados na discussão.
Em uma versão anterior deste artigo, eu chamava uma matriz baseada em urgência e importância de “Matriz MVP”. Esse nome não era correto. Essa estrutura é conhecida como Matriz de Eisenhower.
A Matriz de Eisenhower divide atividades entre importante, não importante, urgente e não urgente. A partir disso, normalmente decidimos entre fazer, planejar, delegar ou eliminar.

Ela é uma excelente ferramenta para organizar prioridades, especialmente tarefas e uso do tempo. Mas, quando estamos comparando diferentes soluções para um problema de produto, considero a Matriz Esforço × Impacto mais apropriada, porque coloca diretamente na discussão o custo relativo de implementação e o benefício esperado.
Em outras palavras, uma ideia ser urgente não significa necessariamente que seja a melhor solução.
Depois de priorizar as ideias, ainda não significa que devemos construir imediatamente a solução completa. Se existe incerteza, normalmente prefiro descobrir primeiro qual é a menor coisa que podemos fazer para validar nossa hipótese.
É aqui que entra o conceito de produto mínimo viável, ou MVP. A pergunta deixa de ser apenas “o que devemos construir?” e passa a ser:
“Qual é a menor versão desta solução capaz de nos ensinar se nossa hipótese faz sentido?”
Isso é importante porque uma ideia pode parecer excelente durante um brainstorming e ainda assim fracassar quando chega ao mercado. Quanto menos tempo e dinheiro precisarmos investir para descobrir isso, melhor.
Mercado, hipótese, viabilidade e business case estão diretamente ligados a essa decisão. Por isso, recomendo novamente: Análise de mercado e business case: como avaliar a viabilidade de um produto .
Existe uma parte desse processo que frequentemente é esquecida: depois de escolher uma ideia, alguém ainda precisa executá-la.
Uma solução que parecia simples durante o brainstorming pode começar a consumir muito mais dinheiro do que imaginávamos. O MVP pode crescer até deixar de ser mínimo. As tarefas podem estar mal descritas, as estimativas podem começar a falhar e novos riscos podem aparecer durante a execução.
É aqui que Saint Jude Project Intelligence pode apoiar a tomada de decisão. Ao utilizar os dados existentes em plataformas como Jira, Azure DevOps, Asana, Monday.com e ClickUp, podemos acompanhar custo, cronograma, estimativas, qualidade das atividades, capacidade do time, performance e riscos relacionados à implementação.
Imagine, por exemplo, duas soluções que parecem gerar impacto semelhante. A primeira exige poucas alterações e pode ser entregue rapidamente. A segunda começa a consumir várias sprints, depende de profissionais específicos e está utilizando muito mais orçamento do que o esperado.
Essa informação pode mudar completamente nossa decisão. Afinal, priorização não deveria terminar quando colocamos uma ideia dentro de um quadrante. Precisamos continuar avaliando se aquilo que parecia uma boa ideia continua sendo uma boa decisão enquanto está sendo executado.
Talvez esse seja o principal ponto deste artigo. O objetivo do brainstorming não é reunir um grupo de pessoas até que alguém encontre magicamente “a ideia certa”.
O objetivo é criar alternativas suficientes para que não sejamos obrigados a executar a primeira solução que surgiu na cabeça de alguém. Depois disso, utilizamos dados, contexto, experiência, priorização e experimentação para reduzir gradualmente as possibilidades.
Brainstorming ajuda a abrir o espaço de soluções. Crazy 8 pode acelerar a ideação. A Matriz Esforço × Impacto ajuda a organizar prioridades. Um MVP ajuda a validar a solução antes de investir demais. E os dados da execução ajudam a descobrir se aquilo que escolhemos continua fazendo sentido na prática.
No final, encontrar boas soluções não é apenas uma questão de criatividade. É um processo de decisão.
E uma boa decisão normalmente começa com duas perguntas:
“Estamos resolvendo o problema certo?”
“Quais alternativas ainda não consideramos?”
Até breve!
Erik Scaranello
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